The Jester and the Black Prostitute

 

Tragic farce

 

Where you were a woman lying down, after

the twilight service, now

you are a poem:

 

Worn cornucopia among festoons of withered roses.

 

It is the carbo-

nic hour and the sultry sun

is both dreamy and sleepless.

 

The legion of the offended demand

your legs in a V,

silent vacuum of the twilight.

 

It is time for the river, the thick river that slowly flows

flows through the blinds' razors,

the dark river. Mirrors and coffins

in muted exile sail:

You gaze in the bier and die in the mirror.

Die. Interdie.

Inter (coffin and mirror) die.

 

Your chandelier (baroque octopus

balancing seven rotten oranges)

and your bed of led on display

as the procession comes:

 

Everything goes on this river, except the river.

 

Minerals, flora and cartilage

aid with two mollusks

withered and worn,

so that I may compose you, recomposing:

 

Worn cornucopia among festoons of withered roses.

 

(Model in repose. The shrouds of the blinds

fall. Guillotines of light carve your pink

backside: you have a maimed wrist and a breast drinking

in the shade. You initiate the cycle of crystals and already scintillate.)

 

Your al(luring)cove thus spelled in slo-o-o-

w motion, you lift your brow and reveal:

"There is a drowned statue ..." (In slow motion! – I said).

"There is a dr

owned statue and a poet(aster)

laureate. How I lament them and

how I disregard them!

Let us cry for both!"

 

Let us cry for both – I sob, and intoninga

liturgical impropriety in two voices

we compose a symbolic epicedium in Her Honor

who lying down was a poem and is no more.

 

Holding your breath, you initiate the great

subterranean cycle of return

to the great friendships without memory

and already rot:

 

Worn cornucopia among festoons of withered roses.



 Décio Pignatari / Gringo Carioca

 

*Publicado em Zunái: Revista de Poesia e Debates
Vol. 1 No. 2 (Dezembro 2013)

ISSN 1983-2621

http://zunai.com.br


 

O jogral e a prostituta negra

 

Farsa trágica

 

Onde eras a mulher deitada, depois

dos ofícios da penumbra, agora

és um poema:

 

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

 

É à hora carbôni-

ca e o sol em mormaço

entre sonhando e insone.

 

A legião dos ofendidos demanda

tuas pernas em M,

silenciosa moenda do crepúsculo.

 

É a hora do rio, o grosso rio que lento flui

flui pelas navalhas das persianas,

rio escuro. Espelhos e ataúdes

em mudo desterro navegam:

Miras-te no esquife e morres no espelho.

Morres. Intermorres.

Inter (ataúde e espelho) morres.

 

Teu lustre em volutas (polvo

barroco sopesando sete

laranjas podres) e teu leito de chumbo

têm as galas do cortejo:

 

Tudo passa neste rio, menos o rio.

 

Minérios, flora e cartilagem

acodem com dois moluscos

murchos e cansados,

para que eu te componha, recompondo:

 

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

 

(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das

persianas. Guilhotinas de luz lapidam o teu dorso em

rosa: tens um punho decepado e um seio bebendo

na sombra. Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas.)

 

Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-

ra lenta, levantas a fronte e propalas:

“Há uma estátua afogada…” (Em câmara lenta! – disse).

“Existe uma está-

tua afogada e um poeta feliz(ardo -o

em louros!). Como os lamento e

como os desconheço!

Choremos por ambos.”

 

Choremos por todos – soluço, e entoandum

litúrgico impropério a duas vozes

compomos um simbólico epicédio A Aquela

que deitada era um poema e o não é mais.

 

Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo

subterrâneo de retorno

às grandes amizades sem memória

e já apodreces:

 

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.


Décio Pignatari


 
 

 

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