Theory and Practice of the Poem

 

I

Silver birds, the Poem
illustrates the theory of its flight.
Metamorphosed blue nightingale
measured geometer
the Poem meditates on itself
as a circle meditates on itself in its center
as the circle’s rays meditate on it
crystal fulcrum of movement.

 

II

A bird imitates itself in each flight
ivory zenith where the tense
longing is judged
over the moment’s force lines.
A bird is known in its flight,
mirror of itself, mature
orbit,
time attained over Time.

 

III

Equanimous, the Poem ignores itself.
Leopard pondering itself in its leap,
what of its prey, feather of sound,
evasive
gazelle of the senses?
The Poem proposes itself: system
of rancorous premises
evolution of figures against the wind
star chess.  Salamander of fires
that provokes, it endures unscathed,
Sun set in its center. 

 

IV

And how is it made? What theory
rules the spaces of its flight?
What sandbags retain it? What weights
curve, claw the tension of its blast?
Sitar of language, how is it heard?
Court of gold, how is it glimpsed,
thought proportioned to it?
 

V

Behold: parted in half
the aerial spindle of movement
the ballerina remains.  Acrobat,
bird of pleasant flight,
fullmooned princess of this kingdom
of breezy veils: the air.
Where did she learn the impulse that carries her,
grateful, to the fleeting commitment?
Not as the bird
according to nature
but as a god
against naturam flies.

 

VI

As such the Poem.  In the Elysian fields
of equilibrium to which it aspires
its dexterity holds it in check.
Agile winged athlete
hoists the trapezes of adventure.
Birds don’t imagine themselves.
The poem premeditates.
The former comply with the design of the infinite
astronomy of which they are feathered Orions.
The latter, judge and jury of itself,
Lucifer hovering over the abyss,
free,
facing a greater king,
a greater lesser king.

 

– Haroldo de Campos / Gringo Carioca

 

 

 

Teoria e prática do poema

 

I

Pássaros de prata, o Poema
ilustra a teoria do seu vôo.
Filomela de azul metamorfoseado,
mensurado geômetra
o Poema se medita
como um círculo medita-se em seu centro
como os raios do círculo o meditam
fulcro de cristal do movimento. 

 

II

Um pássaro se imita a cada vôo
zênite de marfim onde o crispado
anseio se arbitra
sobre as linhas de força do momento.
Um pássaro conhece-se em seu vôo,
espelho de si mesmo, órbita
madura,
tempo alcançado sobre o Tempo.

 

III

Equânime, o Poema se ignora.
Leopardo ponderando-se no salto,
que é da presa, pluma de som,
evasiva
gazela dos sentidos?
O Poema propõe-se: sistema
de premissas rancorosas
evolução de figuras contra o vento
xadrez de estrelas.  Salamandra de incêndios
que provoca, ileso dura,
Sol posto em seu centro.

 

IV

E como é feito?  Que teoria
rege os espaços de seu vôo?
Que lastros o retêm?  Que pesos
curvam, adunca, a tensão do seu alento?
Cítara da lingual, como se ouve?
Corte de ouro, como se vislumbra,
proporcionado a ele o pensamento? 
 

V

Vede: partido ao meio
o aéreo fuso do movimento
a bailarina resta.  Acrobata,
ave de vôo ameno,
princesa plenilúnio desse reino
de véus alísios: o ar.
Onde aprendeu o impulso que a soleva,
grata, ao fugaz cometimento?
Não como o pássaro
conforme a natureza
mas como um deus
contra naturam voa.

 

VI

Assim o poema.  Nos campos do equilíbrio
elísios a que aspira
sustém-no sua destreza.
Ágil atleta alado
iça os trapézios da aventura.
Os pássaros não se imaginam.
O Poema premedita.
Aqueles cumprem o traçado da infinita
astronomia de que são órions de pena.
Este, árbitro e justiceiro de si mesmo,
Lusbel libra-se sobre o abismo,
livre,
diante de um rei maior
rei mais pequeno. 

 

– Haroldo de Campos

 
 

 

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