The Werewolf

 

Love is for me an Iroquois,

Yellow-skinned and ferocious-looking,

That always comes galloping, mounted

On a mare called Sadness.

Ay, Sadness has iron hooves

And spurs of strange metal

The color of wine, of blood, of death,

A metal resembling jealousy.

                  

(The Iroquois has long known the way to the place

Where I am at his mercy:

It is a paved road, both solitary and dark,

Passing through some colossal groves

That open up their enormous mouths of silence and solitude).

 

The other day I felt a concrete yelping

Beating on the hooves:

It was my Iroquois arriving

With its anti-Quixote gesture.

He was grand, wearing nothing

He gripped hearts and hairs

Straightened arteries in his hands

And ripped off my bloodless skin

And covered himself with it as he left

Throwing the pores in my face.

And I left transvested in Pain,

Pain stolen from a street sign

Howling for the wind to stop

Whipping my skin of nerves.

The cold came with eyes of ember

It threw eyes all over my body;

I met a woman on the street,

I implored her to give me her skin

And she said, crying with resentment,

That she was a mother, with full breasts

And her daughter doesn't like nerves;

I met a beggar on the street

Dying of hunger and cold;

"Give me your skin, innocent beggar,

Before She comes to get you."

He answered as She carried him away:

"Will you return it on Judgment Day?"

I met a dog on the street:

"Hey dog, will you let me have your skin?"

And he, naive, leaving his bitch

Ripped off his blood-filled epidermis

All hot and spotted haired

And went to the fields of the moon

Disdressed in his own nakedness

Imploring the epidermis of the moon.

So I went dressed as a transvestite

Bold on the scale of life

And there was nowhere for me.

 

I'm not a dog, I'm not a man - I am myself.

 

Iroquois, Iroquois, what have you done?



 Décio Pignatari / Gringo Carioca

 

*Publicado em Zunái: Revista de Poesia e Debates
Vol. 1 No. 2 (Dezembro 2013)

ISSN 1983-2621

http://zunai.com.br


 

O Lobisomem

 

O amor é para mim um Iroquês

De cor amarela e feroz catadura

Que vem sempre a galope, montado

Numa égua chamada Tristeza.

Ai, Tristeza tem cascos de ferro

E as esporas de estranho metal

Cor de vinho, de sangue, e de morte,

Um metal parecido com ciúme.

 

(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar

Onde estou à mercê:

É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,

Passando por entre uns arvoredos colossais

Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).

 

Outro dia eu senti um ladrido

De concreto batendo nos cascos:

Era o meu Iroquês que chegava

No seu gesto de anti-Quixote.

Vinha grande, vestido de nada

Me empolgou corações e cabelos

Estreitou as artérias nas mãos

E arrancou minha pele sem sangue

E partiu encoberto com ela

Atirando-me os poros na cara.

E eu parti travestido de Dor,

Dor roubada da placa da rua

Ululando que o vento parasse

De açoitar minha pele de nervos.

Veio o frio com olhos de brasa

Jogou olhos em todo o meu corpo;

Encontrei uma moça na rua,

Implorei que me desse sua pele

E ela disse, chorando de mágua,

Que era mãe, tinha seios repletos

E a filhinha não gosta de nervos;

Encontrei um mendigo na rua

Moribundo de fome e de frio:

“Dá-me a pele, mendigo inocente,

Antes que Ela te venha buscar.”

Respondeu carregado por Ela:

“Me devolves no Juízo Final?”

Encontrei um cachorro na rua:

“Ó cachorro, me cedes tua pele?”

E ele, ingênuo, deixando a cadela

Arrancou a epiderme com sangue

Toda quente de pêlos malhados

E se foi para os campos da lua

Desvestido da própria nudez

Implorando a epiderme da lua.

Fui então fantasiado a travesti

Arrojado na escala do mundo

E não houve lugar para mim.

 

Não sou cão, não sou gente - sou Eu.

 

Iroquês, Iroquês, que fizeste?


Décio Pignatari


 
 

 

gringocarioca.com

 

Copyright © Marco Alexandre de Oliveira –

All Rights Reserved

 
www.000webhost.com